sexta-feira, 28 de abril de 2017

Em defesa do direito à manifestação, por Felipe Santa Cruz


A Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Estado do Rio de Janeiro, vem a público repudiar veementemente a violenta ação da Polícia Militar contra milhares de manifestantes que participavam de ato no fim da tarde desta sexta, dia 28, na Cinelândia. 

Nada justifica a investida, com bombas e cassetetes, contra uma multidão que protestava de modo pacífico. Se houve excessos por parte de alguns ativistas, a Polícia deveria tratar de contê-los na forma da lei. Mas o ataque com métodos de tocaia e a posterior perseguição por vários bairros a pessoas que tão-só exerciam seu direito à manifestação representa grave atentado à Constituição e ao Estado democrático de Direito.

O Brasil passou mais de duas décadas sob o jugo do autoritarismo. Não podemos admitir qualquer ensaio de retorno a aqueles tempos sombrios. É o alerta que a OAB/RJ, em seu papel institucional, faz nesse preocupante momento de nossa história. Democracia, sempre.

Felipe Santa Cruz
Presidente da OAB/RJ

“Operação Mídia” contra a greve, por Igor Felippe Santos


As “informações de bastidores” divulgadas na grande mídia sobre as avaliações do Palácio do Planalto em relação à Greve Geral dão o tom de como o governo vai tratar a maior paralisação das últimas décadas no país. 

O que os chamados “jornalistas influentes”, que na verdade são porta-vozes oficiais, dizem é que o governo avaliava que a mobilização seria muito maior e que não existiu uma Greve Geral. 

A cobertura da mídia tenta transformar a paralisação das atividades nas grandes cidades em atos isolados de uma minoria, de caráter político, de constrangimento e imposição do medo à maioria da população. 

A cobertura abusa de imagens de helicópteros de pequenos grupos em piquetes e trancamentos de ruas, avenidas e rodovias. 

Assim, as TVs tentam convencer seus públicos que a mobilização não passa de ações isoladas, escondendo que o sistema de transporte público (ônibus, metrô, trens), bancos, escolas, fábricas, centros comerciais, serviços públicos (como os Correios) não funcionaram e que os trabalhadores ficaram em casa. 

Ao focar nas ações auxiliares da paralisação (os piquetes, trancamentos de vias e atos de rua), secundarizam a força, extensão e caráter de massa da Greve Geral, que transformou uma sexta-feira qualquer de trabalho em feriado em todo o Brasil. 

A mídia, especialmente as TVs, atua como instrumento auxiliar do governo e cria uma válvula de escape para Temer, que fará pronunciamento para diminuir a amplitude da greve e dizer que a manifestação não envolveu a maioria da sociedade. 

A ação sofisticada da mídia mais a contumaz cara de pau dos golpistas serão utilizadas para que não admitam que a Greve Geral teve um impacto de massa, que todos os brasileiros sentiram os seus efeitos e que a maioria apoia as manifestações contra as reformas da Previdência e Trabalhista do governo Temer. 

O problema é que a experiência vivida por milhões de brasileiros neste 28 de abril vale mais que manchetes e minutos no Jornal Nacional, que não terão êxito nessa cruzada para esconder que a Greve Geral foi um sucesso e que as pessoas comuns se colocam em movimento contra a retirada de direitos.

A Constituição de 1988 e o pacto político que sustentava a República foram revogados. Por Daniel Samam


O golpe perpetrado através do impeachment sem crime de responsabilidade da presidenta eleita, Dilma Rousseff (PT), já teria sido suficiente para revogar o pacto político constitucional estabelecido em 1988. Mas os golpistas que se apoderaram do Planalto, junto ao seu consórcio de sustentação no Congresso aceleram o desmonte do Estado e a revogação por completo da Constituição de 1888.

A Constituição de 88 surgiu na transição da ditadura militar para a democracia. Não é tão progressista quanto gostaríamos que fosse, mas também não é tão atrasada quanto outros gostariam que fosse. Não é 100% a posição de ninguém, o que é bom, porque mostra que houve uma pactuação para que ela fosse elaborada. Logo após a sua promulgação começa a primeira onda neoliberal e a carta cidadã passa a ser acusada de ser a responsável pela ingovernabilidade e vem sendo desconstruída desde os primeiros governos neoliberais, no início dos anos 90, logo após o fim da "Guerra Fria" e o colapso da União Soviética (1991).

A Constituição de 1988 tinha em sua base um tripé fundamental:

a) preservação da soberania nacional;  
b) restabelecimento das liberais democráticas individuais e coletivas;  
c) garantia dos direitos sociais, com um rol de direitos trabalhistas, no seu artigo 7º, que realçava o simbolismo histórico do trabalhismo, na formação política brasileira do século XX;

Logo abaixo, podemos ver as Emendas Constitucionais (EC) aprovadas na era Fernando Henrique Cardoso (FHC), e o ataque nocivo de cada uma delas contra a Soberania Nacional (primeira perna do tripé da carta de 88), para a implementação definitiva do processo de privatização no Brasil, por meio da alteração da ordem jurídica.

a) EC 06/95 - marcou o fim do conceito de empresa nacional para possibilitar que empresas estrangeiras, apenas constituídas sob as leis brasileiras, pudessem pesquisar e explorar recursos minerais e possibilitou que empresas estrangeiras, meramente "constituídas sob as leis brasileiras", pudessem realizar a pesquisa e a lavra de minerais (incluindo o Petróleo, gás e derivados) no Brasil; abrindo o caminho para o início da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, que se materializou em 06/05/1997); 
b) EC 07/95 - possibilitou que empresas estrangeiras pudessem realizar o transporte de navegação de cabotagem na costa brasileira e marcou o fim da importante Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro (fundada em 1894), em outubro de 1997, pelas mãos de FHC; 
c) EC 08/95 - permitiu a flexibilização das regras para os serviços de telecomunicações, que possibilitou a privatização do sistema Telebrás, em 29/07/1998, sob o comando de Sérgio Mota, homem de confiança de FHC; 
d) EC 09/95 - permitiu o fim do monopólio constitucional do petróleo em favor da Petrobras e abriu caminho para a aprovação da famigerada Lei 9.478, de 06/08/1997, que permite a venda dos campos de petróleo e gás do Brasil para estrangeiros.

Com o impeachment materializado definitivamente, um governo ilegítimo e sem voto tomou o poder e apresentou uma série de medidas que vão contra o povo brasileiro, sob a égide de “reformas”: do ensino médio, trabalhista, da previdência e a que estabelece um teto de gastos nas áreas de saúde e educação etc., além de iniciaram um amplo programa de privatizações e estrangulamento de Estados e Municípios brasileiros.

Hoje, um juizeco de 1ª instância - sim, me refiro ao pulha Sérgio Moro - é capaz de conduzir coercitivamente um ex-presidente e outros tantos que não ofereciam o menor risco de fuga, autorizar a publicidade de áudios obtidos por grampos da presidenta em pleno exercício do cargo, violar o direito de sigilo da fonte e da liberdade de imprensa e um grupo de concurseiros engomadinhos do Ministério Público que afirmam em coletiva de imprensa que "não tem provas, apenas convicções", deixa claro que as liberdades não estão sendo respeitas no país. Ou seja, foram revogadas as liberdades democráticas (segunda perna do tripé) garantidas pela Constituição de 1988.

No último dia 22 de março de 2017, ao ser aprovada a terceirização irrestrita nas relações de trabalho, inclusive no serviço público, e na última quarta-feira, 26 de abril de 2017, ao ser aprovada a reforma trabalhista, sentenciou-se a revogação da Constituição de 1988, com a derrubada da terceira perna do tripé da carta de 88, simbolizada pelos direitos sociais e trabalhistas.

Imagino que Fernando Henrique Cardoso et caterva estejam festejando o enterro da "Era Vargas", também sonhado pela elite entreguista e para tristeza e desamparo de milhões de trabalhadores e trabalhadoras, que daqui por diante serão mais e mais explorados e não terão a mínima garantia.

Por fim, diante de tamanho retrocesso, não nos resta outra alternativa a não ser lutar por uma convocação de uma nova Assembleia Constituinte para construir um novo pacto político, que dê conta de restabelecer o equilíbrio das forças políticas e sociais no Brasil, bem como por fim à crise política e econômica que corrói a nação e seu povo.

Mas antes, devemos lutar por eleições diretas em todos os níveis (Executivo e Legislativo). Pois só um presidente eleito e chancelado pelo voto popular será capaz de liderar esse processo. E claro, será necessário um plebiscito revogatório de todo entulho aprovado desde que o consórcio golpista apeou a presidenta Dilma e se apossou do Planalto.

Vamos à luta.

Abraços,
Daniel Samam

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Por quê a greve geral do dia 28 é tão importante? Por Daniel Samam


É preciso ter claro que se o conluio que se apossou do poder não conseguir demonstrar a seus patrões a sua capacidade de aprovar a malfadada "reforma" da Previdência, a derrocada golpista será irreversível. 

Quem dita a pauta do congresso e do governo é o consórcio golpista que envolve o capital financeiro, o Poder Judiciário e a mídia corporativa. Mesmo assim, apesar da narrativa unilateral imposta por este consórcio golpista através da mídia, em especial da Rede Globo, a realidade é revelada nas últimas pesquisas VoxPopuli/CUT e Ipsos: 92% consideram que o país está no rumo errado, o governo ilegítimo e sem voto chegou aos 4% de aprovação, o golpista Temer atingiu 87% rejeição e 90% dos entrevistados querem eleições diretas para presidente.

Por isso, todo esforço deverá ser empregado para uma grande greve geral. Todos nós, dos mais diferentes setores da sociedade, deveremos fazer a nossa parte. Esse é um movimento amplo, de toda a sociedade. Na verdade, é de todas e todos aqueles que não concordam com as "reformas" que retiram direitos conquistados. 

Parar no dia 28 de abril significa dizer não a corrupção e as medidas e reformas que massacram trabalhadoras e trabalhadores para privilegiar o capital financeiro. A greve do dia 28 é um grito por direitos. 

Participe, mobilize, pare, colabore com a resistência. A mobilização da sociedade nunca foi tão necessária para, juntos e juntas, impedirmos esse e outros retrocessos no país.

Repito, a greve geral da próxima sexta-feira (28) tem de ser o começo de uma paralisação maior, que não se restringe a um dia apenas. É isso e "diretas, já". Enquanto não houver eleições diretas, em todos os níveis, a crise não é superada e o país não anda.

Concluo com o grande e saudoso Zygmunt Bauman: "Eis o dilema: ou damos as mãos ou nos juntamos ao cortejo fúnebre de nosso enterro numa colossal vala comum". 

#ForaTemer #NenhumDireitoAMenos #DiretasJá #GreveGeral

Abraços, 
Daniel Samam

"A privatização do Satélite da Telebrás: mais uma ameaça à nossa soberania", do Clube de Engenharia

Publicado originalmente no site do Clube de Engenharia.


Na esteira de reformas feitas na surdina, sem participação da sociedade, a privatização do satélite da Telebrás é mais uma iniciativa de delegar ao mercado soluções que deveriam provir da política pública de inclusão digital. E o mercado, entenda-se, as prestadoras de serviços de telecomunicações, já deixou claro que não tem interesse em inclusão digital pois, desde que aquelas empresas, há 20 anos, assumiram os serviços prestados pela Embratel, apenas 16% dos domicílios das classes D e E e 22% de domicílios rurais têm acesso à internet. Apesar disso, o governo esboça mais um movimento de entrega das comunicações nacionais ao mercado, deixando de lado os indispensáveis requisitos de soberania, segurança e atendimento social.

Atualmente cerca de 50 satélites oferecem serviços no território nacional, todos pertencentes a empresas multinacionais. Não é de hoje que as nossas Forças Armadas clamam por dispor de canal próprio para seu tráfego de dados, por questão de segurança. Para atendê-las foi concebido o projeto do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações (SGDC) da Telebrás. Mais ainda, buscou-se também atender a objetivos sociais, de modo a levar a internet a escolas, hospitais e repartições públicas. 

O SGDC, a ser lançado nos próximos dias, corre risco de ter sua finalidade desfigurada, pois o governo pretende licitar 80% da sua capacidade para empresas multinacionais e terceirizar a sua operação. Não restará capacidade sequer para ativar internet nas escolas rurais e em periferias de grandes cidades. Mais ainda, a licitação proposta embute uma fraude, pois a Telebrás, quando da autorização para desenvolver o SGDC, ganhou o direito de explorá-lo sem licitação, por valor simbólico, com a condicionante de atender ao Plano Nacional de Banda Larga (PNBL): objetivo social. A venda da capacidade do satélite sem que haja pagamento pela posição orbital representa uma abdicação do Estado em estabelecer política pública adequada ao provimento de serviços de telecomunicações, uma entrega injustificada de patrimônio público à iniciativa privada, e um atentado à soberania e segurança nacionais. 

O Clube de Engenharia se soma às manifestações de repúdio à proposta do governo, provindas, entre outras, do Sindicato Nacional das Empresas de Telecomunicações por Satélite (SINDISAT), para o qual a exploração do SGDC deve se dar dentro do que estabelece o PNBL, e não “deveria causar impacto comercial e competitivo” das comunicações por satélites, já antevendo uma disputa por mercados e da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (ABRINT), para qual o modelo proposto pela Telebrás é um equivoco por “não ter nenhum objetivo de atendimento social” e reitera seu compromisso permanente de defender a soberania nacional.

A Diretoria

Preste atenção: o golpe é contra você! Veja os 13 pontos da reforma trabalhista que mexerão na sua vida para sempre e pra pior


1. Demissões coletivas . Agora os empregadores podem demitir todo mundo da sua empresa e contratar outras pessoas por menores salários e menores benefícios sem nenhuma multa.

2. Trabalho temporário, pra sempre . O patrão vai poder te contratar por hora durante toda a sua vida. Sem garantias. Por exemplo: bares, restaurantes, indústrias poderão te chamar para trabalhar temporariamente quando quiserem e você não terá seu emprego e salário fixos garantidos.

3. Hora-extra . A CLT prevê jornada de trabalho de no máximo 8 horas por dia. Agora, ao invés de pagar horas extras para o trabalhador que ficar mais tempo trabalhando, o empregador vai contratar uma jornada de trabalho maior. Diminui o salário do empregado no final do mês.

4. Meia-hora de almoço . Antes era obrigatório almoço de uma hora. Mas para este governo apenas meia-hora é suficiente.

5. Suas roupas também entraram na reforma . A partir de hoje o patrão vai poder dizer até como você tem que se vestir. Mesmo aqueles uniformes que te exponham ao ridículo estão liberados. E não importa que faça frio ou calor, a roupa é a que os patrões escolherem.

6. Fim do transporte de empregados . As empresas não precisarão mais pagar pelas suas horas de deslocamento. Quem mora mais longe é o mais prejudicado. Vai perder tempo e dinheiro.

7. Mexeram nas suas férias . Agora os patrões podem parcelar livremente suas férias em até 3 vezes, como for melhor pra eles.

8. Se você é terceirizado , preste atenção: a empresa que contratou a terceirização (às vezes é o governo ou outra empresa bem maior) não vai mais ter responsabilidade nenhuma sobre sua indenização se você for demitido. Se você não receber os seus direitos, já era.

9. E se você tem carteira assinada e está há muitos anos na empresa? Saiba que agora a empresa vai poder te demitir e demitir todos os teus colegas para contratar terceirizados, mais baratos pros patrões, sem direitos, sem carteira assinada.

10. A crueldade chega até às grávidas : quem decide aonde as grávidas (e as lactantes) trabalham é o médico da empresa. Ou seja, mesmo que ela esteja em um local insalubre para ela e o bebê, quem decide agora o lugar de trabalho é teu patrão. E a quem você vai poder reclamar?

11. Não tem mais Comissão de Conciliação Prévia . O que o patrão negociar com você vai valer mais do que a Lei. Vale o que o patrão mandou e a regra que você assinou quando conseguiu o emprego.

12. Rescisão . Não vai ser mais obrigatório o sindicato assinar a tua rescisão. Eles podem agora fazer a rescisão do jeito que eles quiserem. Você ficou não mão dos patrões.

13. Golpe na Justiça do Trabalho . A justiça do trabalho não é mais gratuita. Você vai ter que pagar honorário até do perito. E se não tiver dinheiro, fica sem poder reclamar.

Vamos reagir! Greve Geral nessa sexta, 28 de abril!

Por um referendo revogatório de todo entulho aprovado pelos golpistas!

Fora temer! Diretas já!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Anatomia do golpe: as pegadas americanas", por Tereza Cruvinel

Artigo publicado originalmente no Brasil 247.


“O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática , tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la", diz o jornalista Pepe Escobar.   E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e um dos operadores do Petrolão,  teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupuniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava Jato e lograr a impunidade. O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ela faça o que está fazendo, foi peça de  operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.

Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultra-liberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.

As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar  Dilma para se salvarem. E daí vieram  a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.

Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava Jato e suas estrelas, a Fiesp com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara.  E também as obscuras mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobrás, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar,  tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.

Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobrás, em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.

Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil,  em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo.  Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse:. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde : “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”. 

O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros que Ayalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos,  detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobrás e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bisbilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.

A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, India. Chia e Africa do Sul),  especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.

Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobrás como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010 mas como senador eleito em 2014,  apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.

No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganham adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passam a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez,  davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Coch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e SD. 

Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou,  veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.

Mas nesta altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção.  E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Yousseff, numa operação que não tinha conexão com a Petrobrás,  o juiz federal Sergio Moro consegue  levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.

Com a prisão de Yousseff, a Lava Jato deslancha como um foguete. Os primeiros presos já se defrontam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobrás. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era  inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e uma bem sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.

As coisas foram caminhando juntas, na Lava Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A Fiesp entrou de cabeça na conspiração e a Lava Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a  perseguição a Lula, a coerção para depor no aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele vira ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.

No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.

Em março, a ajuda externa já fizera sua parte mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reúnem, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.

Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez.  Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964.


Tereza Cruvinel é Jornalista.