Teremos coragem para a revolução? Por Mauri Cruz

Publicado no Outras Palavras.


Com a greve [I] dos caminhoneiros autônomos e o lockout [II] das empresas de transportes de cargas ficou escancarada a profunda dependência que nós brasileiras e brasileiros temos em relação aos mecanismos criados pela economia do sistema neoliberal. Até a mais básica das necessidades, que é o acesso a água, depende de como os grandes monopólios econômicos organizam os seus interesses. Nos demos conta da profunda dependência do sistema rodoviário e dos combustíveis fósseis. Sem eles, nada funciona. Os ditos comentaristas” televisivos se perguntam: quem acabou com os trens e com as hidrovias? A resposta, como sabemos, está nos comerciais. Basta olhar para seus patrocinadores como a Shell e as empresas da indústria automobilística. Enfim, o neoliberalismo transformou em mercadoria todas as dimensões da vida. Isso vale dizer que, se o grande capital decidir “fechar as torneiras” não há as mínimas condições de manutenção da vida, pelo menos, no curto prazo.

Neste sentido, o último livro de Ladislau Dowbor – A Era do Capital Improdutivo [III] – é revelador. Ele simplesmente desenha o sistema neoliberal. Mostra como foi construída esta dependência e como ela foi sendo redirecionada para fora das cadeias produtivas que, com a robotização, com a redução da mão-de-obra intensiva, as inovações tecnológicas e a acumulação da riqueza nas mãos de pouquíssimas organizações despersonalizadas. A chamada “era do conhecimento” não é amanhã. Ela é agora. Por isso, as grandes empresas multinacionais hoje são a Apple, a Microsoft e Alphabet que desbancaram gigantes como a Exxon Mobil, General Eletric e Bank of America. Faz-se tudo pela internet. Menos levar a farinha até a padaria. O cloro até a estação de tratamento de água. O combustível até a bomba. Aliás, as duas únicas etapas de maioria das cadeias produtivas que ainda não foram robotizadas são os transportes – de pessoas, bens e mercadorias – aí a importância fundamental dos segmentos dos vários setores de transportes – e a etapa do descarte e/ou reciclagem dos resíduos.

É preciso que a esquerda se dê conta que a era do progresso – denominada pelo binômio “crescimento” e “desenvolvimento” – acabou. Ela foi embalada pela ideia utópica – tudo nasce da utopia – de que progresso não só era inevitável como era desejável. Com o progresso, diziam, a duração da vida aumentaria, os confortos materiais se multiplicariam e o conhecimento seria socializado. A ciência seria colocada à serviço da vida. Durante os últimos séculos o progresso não foi somente defendido, ele foi adorado. Um frango em cada panela. Um veículo em cada garagem. Um hipermercado em cada bairro. Vários shoppings em cada cidade.

Só que, na era do consumo a vida não se mede pelos ciclos normais das estações, das idades dos filhos e dos netos, mas no frenesi do tempo virtual da internet. As pessoas se surpreendem trabalhando cada vez mais, para ter cada vez mais e viver cada vez menos. O emprego é cada vez mais escasso em tempos de robotização, terceirizações, desregulamentações de direitos, fusões e reestruturações da empresa. O progresso – crescimento e desenvolvimento – virou uma grande falácia. Vivemos mais, mas a nossa vida é medida em anos de cachorro.

Para mudar isso, é necessário uma revolução. Não daquelas que muda o bloco político ou o governante de plantão. Mas uma  revolução daquelas que mudam os paradigmas, as bases conceituais e éticas e que reorganizam o pensamento econômico e social de toda a sociedade. Para que isso seja possível, a utopia de um outro mundo possível tem que vir primeiro. Se a saída não está no sistema é preciso ter convicção nas mudanças e começar a praticá-las no hoje, no agora. Sem esta convicção, as eleições serão um mero processo de disputa para ver quem vai administrar este sistema dependente, injusto e irracional. Sem nos convencermos de que é possível construir um outro mundo possível, baseado em novos e antigos paradigmas, não teremos o poder de mudar este mundo no qual estamos metidos. Muito menos, revolucioná-lo.

O primeiro passo é nos organizarmos para romper com a dependência. Criar e investir em nossos próprios meios de vida. Para isso, é necessário reconstruir os vínculos com os bons exemplos do passado, com os povos tradicionais, as culturas dos povos originários, as práticas de nossos avós e bisavós. Talvez caiba a nós fazer a ponte entre os saberes das gerações passadas com os processos de aprendizados das novas gerações. Fazer a ligação entre a produção natural e orgânica, com a energia solar. Ligar a prática da produção de alimentos saudáveis, com as novas tecnologias da comunicação. O certo é que, a conjuntura nos pede coragem. Coragem pra mudar! Sair do lugar comum e praticar o novo. Estaremos à altura deste desafio?
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[I] “Greve é a suspensão coletiva, temporal, total ou parcial da prestação de serviços do empregado ao empregador, visando a defesa de interesses comuns, tais como melhores condições de trabalho, melhores salários, e é enquadrada como um período de suspensão do contrato de trabalho, sendo que o direito de exercê-la encontra previsão na Constituição Federal regulamentado pela Lei 7.783/89. A greve tem caráter de exercício coercitivo, coletivo e direto, entendida como um meio de pressão e coerção sobre os empregadores”

[II] “Lockout é um meio de coersão do empregador, quando este se recursa a oferecer aos trabalhadores as ferramentas para o exercício das suas atividades, “fechando as portas” da empresa, impedindo que os trabalhadores possam entrar, independentemente da classe, função ou hierarquia. Em outras palavras, é uma forma de o empregador forçar a classe de empregados ou o governo a aceitar determinada condição ou determinação de sua parte. A prática do lockout é ilícita quando tiver o objetivo de frustrar a negociação ou dificultar o atendimento das reinvindicações dos empregados.”

[III] DOWBOR, Ladislau – A era do Capital Improdutivo – A nova arquitetura do poder: dominação financeira, sequestro da democracia e destruição do planeta. São Paulo, Ed. Autonomia Literária & Outras Palavras, 2017.
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Mauri Cruz é Advogado socioambiental, especialista em direitos humanos, professor de graduação em direito à cidade e Mobilidade urbana, diretor regional da Abong/RS.

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