O divórcio da política e do capital: o caso Temer, por Fernando Horta

Publicado originalmente no Jornal GGN.


Desde a década de 50 até a de 70 a CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) tem pensado o desenvolvimento econômico da região. Especialmente na década de 70 duas grandes correntes se formaram. A “Teoria da Dependência” (defendida por André Gunder Frank, Celso Furtado e outros) dizia que o problema da América Latina (e do Brasil) era “capitalismo demais”. Afirmava que nós funcionávamos como a periferia de um sistema centralizado nos países ricos. Este sistema tinha como base a condição de manter áreas periféricas pobres, carreando as riquezas para o centro do sistema. Assim, pela própria dinâmica do capitalismo, nós seríamos sempre “subdesenvolvidos”. A solução seria romper com o sistema centro-periferia, através de um vigoroso processo de industrialização que dependia da proteção de mercados e dos investimentos estatais.

De outro lado, se formou a chamada “Teoria do Capitalismo tardio” (defendida por Cardoso de Mello, Fernando Henrique Cardoso e outros) que dizia que o problema da América Latina (e do Brasil) seria “capitalismo de menos”. Como nossas estruturas se formaram a partir de sistemas de trabalho escravistas, semi-servis e relações espúrias entre donos de terra e o Estado, nunca havia se consolidado, de fato, o capitalismo no continente. Sem ocorrer uma ruptura entre os antigos sistemas econômicos e o capitalismo, portanto. O subdesenvolvimento seria, assim, uma falha histórica da região e não um efeito sistêmico, como dizia a “Teoria da Dependência”. A solução seria um “choque de capitalismo” em que se internalizasse uma industrialização baseada no capital privado com a plenitude do livre-mercado.

Ambas as teorias definiam o problema: o “subdesenvolvimento”, mas davam soluções radicalmente diferentes. O Brasil foi passando de solução a solução desde a década de 50. O chamado Desenvolvimentismo da década de 60, por exemplo, bebia da ideia de proteção dos mercados e da tentativa de desenvolver indústrias nacionais. Já o choque neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, aprofundava a ideia de que precisávamos de “mais capitalismo”, concorrência, e o fim dos mecanismos de proteção ao capital nacional. Fernando Henrique dizia que era necessário que o Brasil se “integrasse na economia mundial”, da forma que fosse possível. Ficou conhecida como a “integração do possível” daquilo que éramos competitivos. Todo o resto pereceria. E os empregos junto.

Nos últimos dois anos tivemos oportunidade de ouvir o outro lado. Depoimentos e provas de grandes bilionários brasileiros a cerca da nossa forma de fazer negócios. Odebrecht, Eike Batista e outros empresários da construção civil rasgaram o véu da hipocrisia brasileira e mostraram como nossa economia realmente se sustenta. Na prática, sem as relações com o Estado, estes bilionários não existiriam. E não eram relações simplesmente de oferta e demanda. Sabe-se que o código das leis sobre mineração do Brasil foi escrito nos escritórios de advocacia das empresas mineradoras. Aprovado por Cunha, com pagamento de propina. As propinas também saíam da Odebrecht para virarem benefícios tributários, para ganhar licitações ou para interditar concorrentes.

Mais recentemente, os irmãos donos da JBS revelaram uma verdadeira rede mafiosa na política brasileira. Com pedidos de “5 milhões” para não começar uma CPI. Temer e seus asseclas coordenam um dos esquemas de máfia mais violentos do planeta, com chantagens e até beijos no rosto. A Cosa Nostra italiana e Al Capone estariam a bater palmas para Temer, Geddel, Jucá, Padilha e Cunha e cia. As ameaças do uso da máquina pública para beneficiar ou prejudicar o capital parece que eram entendidas como ferramentas políticas normais por esta corja. Isto é fato.

Entretanto, o outro lado da moeda é que nosso capitalismo realmente é uma fraude. Nossos bilionários, que supostamente seriam a quintessência da nossa meritocracia, só são bilionários porque corrompem, compram leis, decisões e políticos desde a década de 60, segundo Emílio Odebrecht. Vivemos numa economia que mais parece um cão cheio de carrapatos. E os carrapatos, ao tomarem a presidência em 2016, viram imediatamente uma oportunidade de aumentar seus ganhos! O depoimento de Wesley Batista é estarrecedor.

Apesar de serem limitados, nossos bilionários não são burros. Começaram a ver um a um de seus colegas irem parar na cadeia, com aqueles mafiosos que lhes tiravam dinheiro sentados nas cadeiras do congresso e da previdência a sorrir. Deram um basta. O capital decidiu que se eles estão pagando (e sempre pagaram) eles merecem um lugar melhor do que as cadeias brasileiras. O divórcio do capital e Temer tem como maior indício a Rede Globo. Os ataques que a rede dos Marinho tem feito a Temer é a demonstração de que o capital se cansou. Talvez não do parasitismo, porque sabemos que o capitalismo depende da corrupção em todos os países do mundo. Mas talvez tenham se cansado do tipo de parasita, insolente, ignorante, abusado e que se acha no direito de ameaçar, de pedir quinhentos mil num mês, o pagamento do aluguel do escritório no outro e “dois milhões” para pagar advogados. E depois deixar prender.

Isto não quer dizer que eu ache que precisamos de um “choque de capitalismo”. A solução dos neoliberais é nos livrar da corrupção nacional e abrir nossos mercados para a corrupção internacional. Em dólar. Neste meio tempo, nossos empregos somem, nossas empresas médias e pequenas falem, nossa renda diminui e nossas riquezas naturais são doadas (e alguém está levando propina, com certeza). Precisamos retomar as rédeas de nosso país. Nem empresários corruptores (que são tidos pela Lava a Jato quase como heróis) nem políticos comprovadamente corruptos. Os carrapatos devem ser retirados do poder, TODAS as leis e medidas tomadas devem ser declaradas nulas por vício de origem e devemos proteger nossos empregos e nossas riquezas.

Temos sim bons empresários, temos sim bons trabalhadores, temos sim bons sindicalistas e temos sim bons políticos. Não são “todos iguais”, nem “farinha do mesmo saco”. O que este protofascismo delirante está tentando fazer é que joguemos fora a criança com a água do parto. É hora de retomarmos nossa governabilidade e se o capital se cansou dos carrapatos, tanto melhor. Ocorre que eles demonstraram que cultivaram os corruptos por mais de 40 anos, e só passaram a rejeitá-los quando não mais tiveram a sua proteção. Se é verdade que nossos empresários bilionários não sobreviveriam sem a ajuda do Estado, então eles não são suficientemente capazes sequer no jogo deles. Não podem, portanto, imaginar que vão reconstruir o país. Irão apenas trocar os carrapatos. Nada mais.


Fernando Horta é graduado em história pela UFRGS e mestrado em Relações Internacionais pela UnB. Atualmente é doutorando da UnB. Tem experiência na área de História, com ênfase em História da Ciência, Epistemologia e Teoria de História e de Relações Internacionais.

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